A Importância de Filosofar sobre a Fotografia

Aquário de Lisboa

O filósofo tcheco, naturalizado brasileiro, Vilém Flusser (1920-1991) considera a invenção da fotografia tão importante quando a invenção da escrita. Se a escrita revolucionou a humanidade e marcou o início do período histórico, a fotografia, e sua nova forma de codificação e simbolização das informações, marca a pós-história, com desdobramentos igualmente revolucionários, reveladores e modificadores da humanidade. Ele já vislumbrava que a capacidade mágica de uma imagem fotográfica poderia destruir a característica unidimensional, linear, dos textos. Não apenas as fotografias mas também os vídeos e demais mídias eletrônicas são co-responsáveis por essa revolução pós-histórica.

Temos sido testemunhas vivas que, nos últimos anos, as imagens tem deixado de ser meras ilustrações de textos, para se tornarem os protagonistas dos meios de comunicação. Elas submeteram os textos a um papel complementar e secundário. Fenômeno este potencializado por dois aspectos importantes, intimamente associados à fotografia: a facilidade de uso e disponibilidade do aparelho fotográfico e a capacidade de distribuição e acesso à informação fotográfica.

Os aparelhos fotográficos estão nas mãos de todos, e todos os olhares se voltam para a sua tela. Os aparelhos evoluem e são programados para facilitar as fotos, dando uma impressão, perigosamente falsa, de que um grande poder é dado ao fotógrafo. Este, por sua vez, troca as suas decisões pessoais pelas decisões pré-programadas dos aparelhos. Quem passa então a controlar a fotografia é o aparelho e não mais o fotógrafo. Submisso ao controle do aparelho , ele se torna um mero apertador de botão (ou seu equivalente) deixando ao aparelho a decisão de produzir e até de distribuir, também automaticamente, a fotografia. O fotógrafo, ou será seu aparelho, é mais reconhecido pela sua produtividade e pela amplitude da distribuição, do que pela sua qualidade e arte.

Nesta realidade distorcida das fotografias automatizadas, nos vemos frente a um novo mito da caverna, onde desconhecemos e desprezamos outra verdade que não seja aquela revelada pelo aparelho fotográfico. A realidade só existe se for fotografada. Somos funcionários dos meios de distribuição e da sua visão política. Abandonamos nosso próprio ponto de vista para aceitar o ponto de vista do aparelho e do meio de distribuição. O fotógrafo, programado pelo aparelho e pelo meio, é funcionário e escravo de ambos. O sucesso da fotografia é ao mesmo tempo o seu fim.

Conquistar esta consciência é o primeiro passo para nossa liberdade. Este é a finalidade deste artigo. Incentivar a fuga e subversão dos meios convencionados é o único modo de retomarmos o controle da fotografia. Neste momento, devemos discutir, discordar e filosofar. Estes são os caminhos da liberdade. Flusser reconhece que nunca uma filosofia para a fotografia foi tão necessária, como meio para reassumirmos a responsabilidade e o controle da produção fotográfica.

Que as fotografias passem a descrever a real intensão do fotógrafo, que nelas ele imponha seu próprio ponto de vista politico e social, e que ele encontre meios que permitam essa expressão, como esta revista. Meios onde a única política seja a da liberdade, e o único requisito exigido para divulgação seja o da qualidade artística. Onde a pré-programação do aparelho seja exposta e transfigurada pelo artista.

Subverter regras, jogar contra o aparelho e contra as políticas estabelecidas. Assumir o controle e ousar. Estes fotógrafos serão os modelos dos homens livres do futuro.

Vilém Flusser: Filosofia da caixa preta: ensaios para uma futura filosofia da fotografia. Vol. 1. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1985.

Towards a Philosophy of PhotographyTowards a Philosophy of Photography by Vilém Flusser
My rating: 5 of 5 stars

The Czech philosopher, naturalized Brazilian, Vilém Flusser (1920-1991) considers the invention of photography as important as the invention of writing. While writing revolutionized humanity and marked the beginning of the historical period, photography, and its new coding and symbolization of the information, make the post-history, with equally revolutionary developments, developers and modifiers of humanity. He has glimpsed the magical ability of a photographic image could destroy the one-dimensional feature, linear, of the texts. Not only photos but also videos and other electronic media are co-responsible for this post-historical revolution. We have been living witnesses that, in recent years, images have ceased to be mere text illustrations, to become the protagonists of the media. They submitted the texts to a supplementary or secondary role. This phenomenon enhanced by two important aspects, closely linked to the photo: ease of use and availability of the photographic apparatus and distribution capacity and access to the photographic information. These ideas are explored in great detail in the book that I find extremely interesting to read and think about. Highly recomended.

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